Ilha de Cajaíba, conhece? Eu também não.

Padrão

       

Uma coisa que me faz considerar a possibilidade de visitar um lugar é uma matéria de turismo bem escrita. De vez em quando, essas matérias aparecem em veículos que não são propriamente ligados ao turismo, mas trazem reportagem sobre viagens, como as revistas femininas Elle, Vogue, Marie Claire ou, ainda, revistas de lojas, como as bem produzidas revistas da Le Lis Blanc, de distribuição gratuita.

Além dessas reportagens, vez ou outra a gente encontra a indicação de um barzinho, um restaurante ou um hotel. Numa dessas leituras, vi uma pequena entrevista com Margherita Missoni, herdeira da marca italiana, dizendo adorar a Praia da Pipa (!) e que agora queria conhecer a Ilha de Cajaíba, na Bahia, onde seria inaugurado em 2012 mais um Hotel Missoni.

Nada anormal em relação a esse fato, já que está ficando comum para as grandes grifes de roupa diversificarem seus negócios, inclusive partindo para a hotelaria de luxo. Já soube da existência do Hotel Armani e do Bulgari Hotel e certamente devem existir outros.   

O que mais me chamou a atenção foi a citação de um local no Nordeste que eu sequer sabia da existência e que, tudo indica, após receber um empreendimento classe A e de grande porte, tem tudo para bombar daqui a alguns verões. Fui direto ao VnV checar informações sobre o local e tive mais surpresas: nenhuma citação na busca textual sobre o lugar. Também não achei nada no Freire’s ou no 100 Praias que Valem a Viagem.

Imaginei logo que era um destino fabricado, pois, parafraseando uma frase jurídica, o que não está nas bíblias praieiras, não está no mundo.  

De certa forma, é quase isso. Googleando o local, acabei descobrindo que está mais para ilha particular do que propriamente para destino turístico. A ilha ficou por uns tempos a venda num site que ainda pode ser consultado, o endereço é www.insight-brazil.co.uk O que achei estranho foram as informações encontradas no site www.visiteabahia.com.br segundo o qual a visitação ao local depende de autorização prévia da Secretaria Municipal de Turismo de São Francisco do Conde, município a que pertence a ilha.

Afinal, a ilha é ou não é de uso privado? Tem 8 km de extensão, fica separada do continente por um canal e possui um conjunto arquitetônico bem conservado, dos tempos áureos da nobreza açucareira: casa grande, senzala (com seus devidos instrumentos de tortura preservados), engenho e palmeiras imperiais da mesma época. O primeiro proprietário foi Mem de Sá (aquele mesmo, dos livros de história, o terceiro Governador Geral do Brasil).  

Não se sabe se o empreendimento irá mesmo sair do papel, pois ele tem sérios entraves ambientais. Mais da metade de seu território é de manguezal e é habitado por uma comunidade remanescente de quilombolas, o que impediria,  pelo que pude entender, a construção do hotel, pelo menos como concebido até o momento, nos moldes dos mais completos resorts.

De qualquer forma, encontra-se anunciado no site da Missoni em “upcoming hotels”, apesar de o Ministério Público da Bahia e o Ministério Público Federal terem solicitado a suspensão do processo de licenciamento ambiental até que se regulamente o plano de manejo e o respectivo zoneamento ecológico-econômico da Área de Proteção Ambiental (APA) da Baía de Todos os Santos.  É esperar para ver o que vai acontecer.

O Ministério do Turismo está dando como certo esse investimento, denominado Ilha de Cajaíba Beach & Golf Resort, inflacionando os números apresentados para a Copa de 2014, totalizando 11 bilhões de reais em investimentos hoteleiros.

Anúncios

»

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s