Arquivo mensal: junho 2010

Ilha de Cajaíba, conhece? Eu também não.

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Uma coisa que me faz considerar a possibilidade de visitar um lugar é uma matéria de turismo bem escrita. De vez em quando, essas matérias aparecem em veículos que não são propriamente ligados ao turismo, mas trazem reportagem sobre viagens, como as revistas femininas Elle, Vogue, Marie Claire ou, ainda, revistas de lojas, como as bem produzidas revistas da Le Lis Blanc, de distribuição gratuita.

Além dessas reportagens, vez ou outra a gente encontra a indicação de um barzinho, um restaurante ou um hotel. Numa dessas leituras, vi uma pequena entrevista com Margherita Missoni, herdeira da marca italiana, dizendo adorar a Praia da Pipa (!) e que agora queria conhecer a Ilha de Cajaíba, na Bahia, onde seria inaugurado em 2012 mais um Hotel Missoni.

Nada anormal em relação a esse fato, já que está ficando comum para as grandes grifes de roupa diversificarem seus negócios, inclusive partindo para a hotelaria de luxo. Já soube da existência do Hotel Armani e do Bulgari Hotel e certamente devem existir outros.   

O que mais me chamou a atenção foi a citação de um local no Nordeste que eu sequer sabia da existência e que, tudo indica, após receber um empreendimento classe A e de grande porte, tem tudo para bombar daqui a alguns verões. Fui direto ao VnV checar informações sobre o local e tive mais surpresas: nenhuma citação na busca textual sobre o lugar. Também não achei nada no Freire’s ou no 100 Praias que Valem a Viagem.

Imaginei logo que era um destino fabricado, pois, parafraseando uma frase jurídica, o que não está nas bíblias praieiras, não está no mundo.  

De certa forma, é quase isso. Googleando o local, acabei descobrindo que está mais para ilha particular do que propriamente para destino turístico. A ilha ficou por uns tempos a venda num site que ainda pode ser consultado, o endereço é www.insight-brazil.co.uk O que achei estranho foram as informações encontradas no site www.visiteabahia.com.br segundo o qual a visitação ao local depende de autorização prévia da Secretaria Municipal de Turismo de São Francisco do Conde, município a que pertence a ilha.

Afinal, a ilha é ou não é de uso privado? Tem 8 km de extensão, fica separada do continente por um canal e possui um conjunto arquitetônico bem conservado, dos tempos áureos da nobreza açucareira: casa grande, senzala (com seus devidos instrumentos de tortura preservados), engenho e palmeiras imperiais da mesma época. O primeiro proprietário foi Mem de Sá (aquele mesmo, dos livros de história, o terceiro Governador Geral do Brasil).  

Não se sabe se o empreendimento irá mesmo sair do papel, pois ele tem sérios entraves ambientais. Mais da metade de seu território é de manguezal e é habitado por uma comunidade remanescente de quilombolas, o que impediria,  pelo que pude entender, a construção do hotel, pelo menos como concebido até o momento, nos moldes dos mais completos resorts.

De qualquer forma, encontra-se anunciado no site da Missoni em “upcoming hotels”, apesar de o Ministério Público da Bahia e o Ministério Público Federal terem solicitado a suspensão do processo de licenciamento ambiental até que se regulamente o plano de manejo e o respectivo zoneamento ecológico-econômico da Área de Proteção Ambiental (APA) da Baía de Todos os Santos.  É esperar para ver o que vai acontecer.

O Ministério do Turismo está dando como certo esse investimento, denominado Ilha de Cajaíba Beach & Golf Resort, inflacionando os números apresentados para a Copa de 2014, totalizando 11 bilhões de reais em investimentos hoteleiros.

Onde tudo começou

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Esse ano fiz meu debut em visitas a estádios de futebol – que não fosse para ver uma banda tocar. Já tendo visto as principais atrações de Montevidéu, saído à noite e visitado alguns pontos interessantes, aproveitamos o tempo livre e fomos ver o Estádio Centenário com mais um casal de amigos.

Numa cidade coalhada de atrações culturais e com muito o que ver, não aconselho ninguém que não seja fanático por futebol a visitar um estádio sem um jogo acontecendo. No nosso caso, já havíamos aproveitado o suficiente as outras atrações da cidade para considerar esse passeio. E o Júnior, nosso amigo, é fanático por futebol o suficiente para nos convencer a visitar o estádio.

O Estádio Centenário, assim batizado em comemoração ao centésimo aniversário da independência do Uruguai, foi palco da primeira Copa do Mundo, realizada em 1930. Achei as instalações mal conservadas e o campo, incrivelmente pequeno. Penso que não mudou muito nesses 80 anos.

Legal mesmo é o museu que funciona ali. O ingresso vendido é uma reprodução da entrada da Copa de 30 e pode ser adquirido em pesos uruguaios, pesos argentinos ou reais mesmo, reforçando o fato de que não é mais necessário comprar dólares para ir à Argentina e pelo visto, ao Uruguai.

O registro fotográfico é bem completo.

Achei essa foto panorâmica do Maracanã de 1950 belíssima. Meu pai tinha 18 anos e testemunhou ao vivo essa derrota. Olhando para ela, quase pude sentir a angústia do torcedor. 

 

Além das fotos e dos objetos pertecentes aos jogadores, como uniformes utilizados em partidas importantes e a bola usada em campo nos jogos de 1930, tem uma pequena e interessante galeria com presentes trocados entre os países durante as Copas.

O museu é pequeno, não tinha muitos visitantes com a gente, o que permitiu que o simpático senhor que nos recebeu na porta, vendeu os ingressos e atendeu na lojinha do museu nos acompanhasse contando as curiosidades não escritas.

Apesar do tamanho, tem um importante acervo para os amantes do futebol. Como a cidade é pequena, dá para encaixar essa visitação numa viagem de 4 dias em Montevidéu sem nenhum prejuízo.

Nunca diga nunca

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A filosofia por trás dos resorts e dos cruzeiros nunca pareceu muito atraente para mim. Gosto de viajar para descobrir coisas novas, bater perna, explorar o destino. Por definição, cruzeiros e resorts são feitos para quem quer descansar paradinho no lugar. O problema é que quanto mais parada, mais minha mente fervilha, então o que era para ser descanso vira reflexão sobre as coisas das quais eu deveria me desligar nas férias.

O fato é que o meu marido recebeu um convite para uma convenção de trabalho na Costa do Sauípe. Tudo pago. Com direito a hospedar a esposa no quarto. Crianças até 3 anos de graça (= Sara free). E não era folga da babá (para poder ficar com meu outro bebê). Podia recusar? Claro que não. Além do mais, era a Bahia. Sorria, você está na Bahia é mais que um slogan de Secretaria de Turismo. É um mantra. Compramos minha passagem e a da Sara e embarcamos nessa sem pensar duas vezes.

Pegamos o voo que saiu de Fortaleza 13h59 min. e chegamos em Salvador por volta de 15h50min. Rapidamente embarcamos num ônibus com outros passageiros do mesmo voo e mais algumas pessoas que já estavam no aeroporto nos esperando e por volta das 17h30 já estávamos no hotel.  A recepção é atenciosa, nos deram umas pulseirinhas pretas – as dos hóspedes comuns eram laranja, mas não consegui perceber nenhuma diferença no tratamento. Havia uma jantar de abertura para os participantes da convenção num local específico, mas como a Sara é pequena, estava comentando com o meu marido que ela estava ficando enjoada e logo iria dormir – sem jantar. Um funcionário do hotel ouviu e me ofereceu o restaurante do hotel. Achei essa atitude de uma sensibilidade ímpar. Agradeci e a moça que ficava na porta ainda disse “não há de que, senhora, venha todas as noites!” Mais delicadeza gratuita. Haviam dito que precisávamos pedir a terceira cama para o quarto, mas quando chegamos, ela já estava lá. Não sei se tinha em todos os quartos, mas o fato é que se a organização do congresso havia passado a informação da terceira hóspede, o hotel providenciou antes de nossa chegada. Também achei isso legal.

O café da manhã era bastante farto e não primava só pela quantidade. Não tinha nada muito sofisticado, mas a comida era deliciosa e tinha (quase) tudo o que você imagina encontrar num café da manhã de um bom hotel. Inclusive a tapioca feita na hora com recheio a sua escolha. Deliciosa.

Não vi bufês sendo montados a toda hora, só mesmo nas três refeições, mas o bar da piscina soltava petiscos durante a manhã e a tarde toda. Nem cheguei a experimentar.

Sara e eu fomos para a piscina, depois andamos até a Vila Nova da Praia, uma espécie de cruzamento entre Arraial d’Ajuda e Las Vegas, um Projac de vilinha de praia nordestina. Por favor, não me entendam mal: é lindinha, mas meio fake. Mesmo assim, muito agradável. Fui até lá no intuito de alugar bicicletas para explorar o complexo, mas a única que poderia levar a Sara era, na verdade, um triciclo que precisava de duas pessoas pedalando. Nesse momento, ela viu a charrete e se apaixonou, mas os passeios só aconteciam com o sol frio, após as 16h. Então, pegamos o ônibus e fomos até a fazendinha, por indicação de vários funcionários que nos disseram para não perder a ordenha às 10h. Ótima dica para uma criança de 3 anos, que saiu de lá felicíssima por ter tirado o leite da vaca pessoalmente, o qual, depois de acondicionado numa mamadeira, foi entregue a ela para oferecer aos carneirinhos-bebês. Programa ultra-meigo.

  

 Terminado o momento Globo Rural, fomos aguardar o ônibus, que circula a cada 20 minutos em cada um dos principais pontos do Complexo, para retornar para um banho antes do almoço. Os outros locais: golfe, tênis, centro náutico (pedalinho, caiaques, tirolesa e gansos bravos), Vila Nova da Praia e a recepção de cada um dos hotéis e pousadas.

A qualidade da comida me surpreendeu. Não tem nada demais, é que eu acho bastante difícil manter uma certa qualidade duma comida feita para batalhão e essa era saborosa, apesar do volume. A sobremesa era simplesmente deliciosa. Não se via aqueles cremes todos com o mesmo gosto. Que nada, eram trufas de chocolate mentolado, queijadinhas super saborosas, umas tortas de patisserie fina, brownies feitos com chocolate verdadeiro e completando, uma geladeira Nestlé com vários sabores de sorvetes. Tudo isso se repetiu – a qualidade, não as comidas – em todas as refeições. O que me chamou a atenção foi a completa ausência de comidas baianas-da-gema, como um vatapá, uma moqueca ou um acarajé. Nadica de nada.

A sequência foi soneca, compras de lembrancinhas na Vila, passeio de charrete, jantar e um passeio pela “vida noturna” da Vila (que acaba às 23h, à exceção de uma boate que eu nem cheguei a ver). No dia seguinte, aproveitamos a praia – que tem um bar com água de côco, refrigerantes e água,  piscinas naturais com uma vida marinha rica – e já era de voltar.  Aqui uma observação: essas piscinas naturais só existem na maré baixa. Acredito que na maré cheia se transformam em pedras perigosas para os banhistas.

Eu não cheguei a mudar meu conceito sobre resorts. Aliás, nem é propriamente um conceito, mas uma questão de gosto. Curti a experiência, mas o fim de semana foi mais do que suficiente.

Ficamos hospedados no Sauípe Park, antigo Sofitel Conventions, como seria apropriado nesse caso. O evento tinha mais de 600 participantes, fora os acompanhantes. Fiquei bem impressionada com a logística do evento e do hotel. Foi tudo muito organizado, desde os transfers ágeis, até o check-out realizado com bastante presteza. Não chega a ser um hotel de luxo, mas a estrutura é muito boa. Mesmo com alguns anos na praça, tudo tem aspecto de novo e bem cuidado, grama bem aparada e nada de tinta descascada. 

 O que me chamou a atenção:

1. o atendimento: não recebi um nãozinho sequer. Os organizadores da convenção do meu marido tinham me dito que o passeio de charrete estava incluso; no local de venda do passeio, ao ouvir que eu não possuía um voucher, a funcionária deu um telefonema e agendou para gente o passeio de 20 minutos, em vez do que leva 1 hora. Se ninguém tivesse me dito que havia o trajeto longo e eu não fosse atenta, nem teria percebido que o passeio NÃO estava incluso.

2. A estrutura é bem cuidada. Conseguiram integrar os hotéis à paisagem de mangue de um jeito magnífico. Por conta disso, tem micos, pássaros diferentes e iguanas que cruzam por você na maior, enriquecendo o cenário do hotel.

  

3. A comida foi bem melhor do que eu esperava. Não era a rodo, o tempo todo, mas essa circunstância, para quem precisa perder os derradeiros quilinhos da última gravidez é ultra-positiva :mrgreen:

O próximo dia já não iria conseguir me manter no hotel, pois dei por visto o complexo. Realmente, minha desconfiança era real: é meio enjoativo ficar ali dentro. Um resort é o local perfeito para viajar com crianças pequenas, mas eu acho que escolheria um outro da próxima vez. Só para variar a paisagem.